As formas de ensinar

O ensino da permacultura, de modo geral, dialoga com distintas metodologias de acordo com quem ensina. No entanto, há uma característica importante no educador que ensina permacultura, ele não é um teórico do assunto, mas antes um cientista prático que não baseia sua opinião apenas em livros, mas sim, está o tempo todo estudando e aprendendo na prática, com vivências concretas em permacultura.

O currículo de um PDC (Permaculture Design Course) deve seguir minimamente a proposta de Bill Mollison, publicada em 1985 no Syllabus, as éticas e os princípios de planejamento propostos por ele, por David Holmgren, lembrando que os princípios estão em constante revisão. Estes documentos foram intensamente discutidos no 1º curso de formação de instrutores de PDC promovido pela Estação de Permacultura Yvy Porã em 2011. Nessa ocasião, 22 permacultores vindos dos mais diferentes biomas brasileiros construíram a estrutura do PDC que foi adotada pela disciplina “Introdução à Permacultura”.

Nas vivências dos instrutores de permacultura discute-se que a ordem destes conteúdos é irrelevante, podendo iniciar por qualquer ponta, mas no fim, chega-se a abranger todo o conteúdo proposto. Neste livro não se pretende ilustrar todas as formas de ensinar permacultura, mas compartilhar a que tem sido desenvolvida pelo NEPerma/UFSC.

O currículo de curso desenvolvido pelo NEPerma/UFSC é construído sobre processos e fluxos energéticos. Entidades parceiras na grande Florianópolis trabalham a partir de outras abordagens, a do Instituto Çarakura é estruturada por zonas, já a da Estação de Permacultura Yvy Porã, segue por pedagogia de projetos. Para todos os PDCs mencionados é compreendido que podemos começar por onde se bem-quiser, desde que mantida a lógica de transmissão sistêmica dos conteúdos.

Ensinando por zonas[edit | edit source]

O ensino começa pela zona “0” (zero), a casa e em alguns casos pela “-1”: que se refere a consciência das pessoas. Nessa abordagem iniciada pela zona “-1” o primeiro dia de PDC é marcado pela sensibilização dos educandos com relação às questões ambientais e sociais. Logo após essa sensibilização, entra-se na zona “0” e segue-se para as demais zonas 1, 2, 3, 4 e 5.

A ideia de ensinar por zonas prevê estimular o educando de dentro para fora e, na medida em que se afasta para zonas mais periféricas, vão se agregando os novos elementos. Em cada zona estudada são repassados todos os conteúdos que podem ser trabalhados para esses espaços, por exemplo: Zona 1: manejo de águas, energias, ecologia cultivada (cultivos e criações), planejamento para eventos extremos, construções, etc. Zona 2: Idem para os elementos que serão implantados nela, e assim sucessivamente para as demais zonas energéticas de planejamento. Alguns temas podem ser passados de forma única ou transversal, pois, independem de zonas, como a leitura da paisagem, a metodologia de planejamento (elementos - características, necessidades e funções - zonas e setores), as estruturas invisíveis, conceitos básicos de ecologia, solos, etc.

Ensinando por pedagogia de projetos[edit | edit source]

Na estação de permacultura de Yvy Porã, os permacultores Jorge Timmermann e Suzana Maringoni propõem que o ensino de permacultura dialogue com a pedagogia de projetos, partindo das vivências dos participantes. Ou seja, que o grupo repense as reais necessidades das pessoas e a sua relação com o meio ambiente.

O curso inicia com as demandas do grupo a partir da pergunta “o que o ser humano precisa para viver e ser feliz?”. As demandas do grupo geralmente apontam para pontos concretos como abrigo, água, alimentação, saneamento, etc. e também para pontos que levam à ética, como respeito, companhia, amor, saúde, etc. Assim, via de regra, parte-se da moradia e segue-se permeando as demais zonas energéticas dialogando com as éticas e princípios de planejamento durante todo o curso.

No sentido de vivenciar as aulas teóricas, aparecem as práticas que servem de ilustração para o que foi desenvolvido em sala ou, venham servir de problematização para a aula teórica que virá depois.

A elaboração do planejamento no final do processo busca fazer a síntese de tudo o que foi estudado e discutido. O fato de um aprendiz de permacultura fazer o exercício do planejamento em grupo, num ambiente com amparo da consultoria dos seus instrutores, é de suma importância para que haja a possibilidade todos se debruçarem sobre o estudado e aplicarem numa área determinada, os conceitos e os conteúdos trabalhados nas aulas.

Ensinando por princípios[edit | edit source]

Em todos os PDCs os princípios de planejamento devem paulatinamente estar presentes, pois, sua incorporação é fundamental para a formação do permacultor. Pensar em um curso onde cada princípio de planejamento (segundo David Holmgren) possa ser abordado em meio turno (manhãs e tardes) no decorrer do curso, pode ser uma via para se obter essa incorporação. O quadro a seguir dá uma sugestão de conexão entre cada princípio de planejamento e o tema a ser abordado no PDC.
Princípio de planejamento Tema a ser abordado
Observe e interaja Leitura da paisagem
Capte e armazena energia Energias
Obtenha rendimento Ecologia cultivada
Pratique a autorregulação e aceite conselhos (retornos) Planejamento para eventos extremos
Use e valorize os recursos naturais renováveis Solos
Não produza desperdícios Método de planejamento do espaço
Planejamento partindo dos padrões para chegar aos detalhes Padrões Naturais
Integrar ao invés de segregar Estruturas invisíveis
Pense soluções pequenas e lentas Introdução e sensibilização
Use e valorize a diversidade Fundamentos de ecologia
Use as bordas e valorize os elementos marginais Águas
Use a criatividade e responda às mudanças Arquitetura e permacultura

Assim, temos o currículo todo com foco na intensidade de cada princípio e o educando pode realizar conexões (pensamento sistêmico) entre os temas, construindo, desta forma, o conhecimento de cada permaculturando. A proposta norteadora é manter os princípios de planejamento presentes ao longo de todo o curso.

Caso não seja adotada como estrutura de ensino, pode-se usar essa abordagem como uma dinâmica ao final de cada aula/tema, onde os participantes devem opinar a respeito sobre qual princípio é o mais intenso para o tema que foi abordado no dia/período. Pode-se ir fixando dia a dia cada princípio aos temas abordados em um cartaz fixado na parede da sala de aula.

Ensinando por fluxos energéticos[edit | edit source]

O currículo do PDC/disciplina ofertada pelo NEPerma/UFSC desde 2012 é baseado em fluxos energéticos. Nele, para cada um dos temas propostos por Bill Mollison, há sempre uma abordagem focando a conservação da energia no ambiente planejado, seja ela estocada em elementos “estáticos” ou “dinâmicos”. O currículo está baseado em três fases que buscam introduzir a temática, sentir os fluxos e estabelecer formas de convívio harmonioso com o ambiente hospedeiro.

A fase de introdução da temática apresenta a permacultura, versa sobre sua essência como ciência holística de cunho socioambiental e filosofia de vida. Para seguir com a lógica de apresentação, são ensinadas as éticas e os princípios de planejamento. Logo após entram os fundamentos de ecologia, versando sobre conceitos básicos com ênfase na sucessão ecológica de espécies em ecossistemas naturais.

A fase que incentiva a percepção dos fluxos inicia com o aprendizado dos padrões naturais, pois, esses estão baseados na eficiência de cada padrão conservar energia por meio do seu uso otimizado, em processos de sobrevivência das espécies que evoluíram desenvolvendo padrões eficientes e capazes de se adaptar às adversidades da natureza. Ainda na fase de percepção dos fluxos, é exercitada a leitura das paisagens, com ênfase em processos morfológicos do sítio e como estes definirão os fluxos energéticos: ventos, águas, calor, sons, etc, em diferentes paisagens na natureza. Seguindo a lógica, é ensinada a metodologia de planejamento, que mapeia a paisagem colocando setores, zonas energéticas e elementos no ambiente a ser planejado.

Na sequência dessa fase, ainda temos a inserção do tema “solos” que versa esse meio como um reservatório de energia acumulada através da matéria orgânica depositada e contida nas porções minerais. Os solos são tratados na permacultura como um grande banco de energias, incluindo a importância como meio estruturante para nossas moradas, como reservatório do ciclo de água e de calor oriundo da decomposição de matéria orgânica. Além disso, serve de substrato fértil ao crescimento das culturas e ser a base da vida. Essas culturas são abordadas na lógica da ecologia cultivada, por meio da qual, são incentivadas a inserção de espécies bem adaptadas a cada condição climática e da paisagem, bem como o uso de técnicas de obtenção de alimentos com baixo consumo de energia. Sobretudo, aquelas gastas pelo permacultor, pois, esse se valerá das conexões entre elementos e zonas energéticas para realizar o manejo do sistema planejado.

O fechamento dessa fase se dá explicitando as principais energias nos temas “Águas” e “Energia” no sistema planejado. Nesses dois temas são mostrados todos os fluxos e estratégias de conservação de conversão dos mesmos, através de dispositivos naturais de manejo ou por tecnologias apropriadas.

A última fase, que versa sobre o convívio harmonioso inclui três temas: Arquitetura e Permacultura, Planejamento para Eventos Extremos e Estruturas Invisíveis.

Como este livro é estruturado conforme o currículo por fluxos energéticos, cada tema será abordado de forma detalhada ao longo da obra.

Estratégias para ensinar à distância[edit | edit source]

É crescente a demanda pelo ensino à distância (EaD), cada vez mais acessível, prático e dinâmico. A permacultura, apesar de essencialmente prática, também pode se adaptar aos ambientes virtuais de aprendizagem.

A equipe do NEPerma/UFSC teve uma experiência valiosa com o EaD junto ao desenvolvimento do Projeto Terra Permanente, onde um PDC foi desenvolvido totalmente on-line e ofertado a extensionistas rurais de todo o Brasil, utilizando-se a plataforma Moodle, como ambiente virtual de ensino e aprendizagem.

Organização do curso[edit | edit source]

O curso PDC em EaD foi dividido em módulos que abarcaram cada tema abordado no curso presencial. Dois temas/módulos foram disponibilizados a cada semana para os educandos.

Cada módulo continha a seguinte estrutura:

  • Material principal: uma videoaula.
  • Material de apoio: vídeos, filmes, textos e/ou reportagens para aprofundar o estudo do tema.
  • Atividade: com o intuito de fixar os conhecimentos obtidos e trazer aos tutores um retorno da aprendizagem.

Ao fim de todos os módulos os educandos desenvolveram o projeto final de planejamento do PDC de forma individual, aplicando os conceitos obtidos em um projeto de permacultura para uma área de terra que eles próprios haviam previamente selecionado na ocasião da inscrição do curso.

No presente livro, ao final de cada aula é apresentada uma sugestão de atividade a ser desenvolvida com os alunos no ambiente EaD. O item “Conteúdo complementar” de cada aula (apenas na versão digital dessa obra), traz também os links para as videoaulas da Playlist do PDC EaD Terra Permanente.

Ponto-chave[edit | edit source]

Na plataforma EaD o processo de ensino/aprendizagem é mais difícil que no curso presencial, já que não é possível ao educador observar e perceber os níveis sutis de compreensão do educando, e este muitas vezes não deixa transparecer suas percepções durante o processo de aprendizado.

Para que a aprendizagem seja efetiva, neste modelo de ensino é necessário um fator em especial, a aproximação. Ela permite perceber, no andamento do curso, se os educandos estão realmente assimilando os conceitos apresentados a eles, se aquele conhecimento está sendo útil, fazendo sentido de acordo com a sua bagagem específica de vivências. Buscar uma aproximação no sentido de criar laços com os educandos, faz com que haja mais empatia de ambos os lados, torna possível o retorno, estimula o envolvimento com o assunto. Para que isso seja efetivo, proponha atividades que estimulem o diálogo, como discussões em grupos pequenos ou na turma, em geral, exposição de pontos de vista em fóruns de discussão, pequenas atividades em que os educandos precisem trocar informações entre si. Outra ação valiosa é apresentar os tutores como pessoas reais, que chamem os educandos pelo nome, que se interessem pela realidade de cada educando e que os incentivem no decorrer do curso.

Além do ensino à distância por completo, é possível planejar métodos de ensino semipresenciais. Neste caso, parte do conteúdo é ministrada através do EaD, e são promovidos encontros para realização de atividades práticas, retirada de dúvidas e aprofundamento de conteúdos.

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